Cidades Digitais PDF Imprimir E-mail
Escrito por Rogerio Raffanti   
21-Jan-2008

Como os bits — e a banda larga — estão invadindo as ruas brasileiras.

img_rdc_espaco_aberto01.jpgNa casa da estudante Andréia Aparecida da Silva, de 21 anos, não existe telefone nem computador. Mas foi pela internet que ela se preparou para o vestibular de medicina. Moradora da pequena cidade de Sud Menucci, a 600 quilômetros de São Paulo, Andréia usou os PCs da biblioteca municipal, conectados por Wi-Fi, para estudar. Depois de quatro meses fazendo cursos e simulados online, ela conseguiu uma vaga na faculdade de enfermagem em Araçatuba. Continuou tentando e, no início deste ano, não só entrou na faculdade de medicina como ganhou uma bolsa de estudos. “Sem a internet, eu não faria nada disso, porque não tinha recursos”, diz Andréia, que é fi lha de uma gari.

Sud Menucci, com seus 8 mil habitantes, virou um dos benchmarks brasileiros na oferta de acesso irrestrito — e gratuito — de banda larga para a população. É justamente o acesso em alta velocidade que vem transformando a transição brasileira para a era das cidades digitais. Iniciativas desse tipo se espalham rapidamente pelo país — de Parintins, no Amazonas, a Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. E são uma alternativa de acesso a pontos mais remotos. Segundo o Ministério das Comunicações, menos da metade (cerca de 2 100) dos 5 565 municípios brasileiros dispõem hoje de internet em alta velocidade. A meta do ministério é levar pelo menos um ponto de banda larga a cada município até 2008. Além disso, o plano nacional de cidades digitais prevê investimentos de 2,8 bilhões de reais em cinco anos. A prioridade é cobrir 1 916 municípios de renda mais baixa, os quais as operadoras de telefonia e de TV por assinatura não têm interesse em atender a curto prazo.


A conexão de alta velocidade, em geral, chega a um ponto do município via link de satélite ou de fi bra óptica. A rede local se encarrega de distribuir o acesso entre os usuários e áreas como escolas, postos de saúde e órgãos da administração municipal. O Wi-Fi, o WiMAX e o mesh (Redes sem fi o

descentralizadas, capazes de se autoconfigurar) têm sido os protagonistas na hora de espalhar a banda larga pelas cidades digitais — tanto por questões de custo como de topografi a. Segundo Celso Torquato Franco, prefeito de Sud Menucci, a rede Wi-Fi implantada no município em 2003 saiu 50% mais barata do que se tivesse sido feita em fi bra óptica. Atualmente ela conecta à internet 700 pontos de acesso, entre residências e estabelecimentos, que compartilham um link da Telefônica de 2,5 Mbps — a velocidade média por usuário é de 64 Kbps. Outro link, de 1,5 Mbps, é usado pelas escolas e órgãos municipais. A despesa mensal da prefeitura é de 5 200 reais.


Piraí, no interior do Rio de Janeiro, também adotou o Wi-Fi em seu projeto de cidade digital, para vencer os obstáculos geográfi cos. “Apesar de a topografi a acidentada, gastamos 600 mil reais para implantar toda a rede em Piraí”, afi rma o ex-prefeito Luiz Fernando de Souza, o Pezão, atual vice-governador do Rio e um dos maiores evangelistas das cidades digitais no país. Inaugurada em 2004, a rede de Piraí interliga todas as unidades da prefeitura, o que inclui 25 escolas e creches, quatro bibliotecas, dez postos de saúde e cinco telecentros. Mas não oferece a banda larga para residências. São cem pontos de acesso que compartilham um link de fi bra óptica de 8 Mbps.


Um dos projetos de Piraí, chamado X-Cross, faz parte de uma iniciativa da União Européia voltada para o desenvolvimento de conteúdo multimídia para estimular o aprendizado de ciências e envolve 24 alunos da 8ª série. Além disso, a cidade foi uma das quatro escolhidas no país para participar do programa Um Computador por Aluno do governo federal — 400 estudantes de uma de suas escolas já receberam os notebooks Classmate, da Intel.


As aplicações de banda larga também se refl etem diretamente na economia de Piraí. “Com a banda larga, conseguimos atrair novas empresas para a cidade”, diz o vice-governador Pezão. Hoje, é o segundo município do Rio de Janeiro em renda per capita e um exemplo que vem sendo seguido por outras cidades do estado que se tornaram digitais — entre elas, Rio das Flores, Mangaratiba, Conservatória, Visconde de Mauá e Macaé.


Almoço plugado

Não é só nas cidades menores que a banda larga sem fi o transforma cenários. Em Porto Alegre, por exemplo, o movimento no Mercado Público aumentou depois que ele virou um hotspot Wi-Fi, plugado à rede municipal, onde é possível navegar gratuitamente pela internet. “Tenho vários clientes que, em vez de ir ao shopping, preferem almoçar aqui para acessar a internet pelo notebook”, diz Gilberto Esteves, dono do restaurante Mamma Julia, instalado no Mercado. Ele tem um PC com placa wireless, pelo qual recebe, via e-mail, pedidos de reservas de clientes e informações dos fornecedores.


Volta Redonda, no Rio de Janeiro, teve ganhos na área de segurança e de controle de trânsito. Desde 2001, a prefeitura usa uma rede Wi-Fi com backbone de rádio ponto a ponto, à qual conectou 26 câmeras de monitoramento espalhadas pela cidade. “Os índices de vandalismo, assaltos e furtos de veículos caíram 77% nas áreas cobertas pelas câmeras”, diz Gilberto Viana Ferreira, assessor da presidência da EPDVR, a empresa de TI do município. A prefeitura está construindo um anel de fi bra óptica, que vai funcionar como backbone integrado à rede sem fi o. Segundo Ferreira, a intenção é instalar mais 34 câmeras e conectar todas elas a esse anel óptico.


A tecnologia WiMAX é a base do projeto digital da prefeitura de Belo Horizonte, num projeto orçado em 6 milhões de reais. A capital mineira está implantando uma rede que funcionará integrada ao backbone da rede metropolitana de fi bra óptica — que hoje interliga cerca de 130 prédios e 600 pontos, num total de 14 mil computadores, por meio de links de 2 Gbps. Segundo o prefeito Fernando Pimentel, até dezembro, 90% de Belo Horizonte terá cobertura WiMAX — só fi cam de fora os lagos da cidade. Para isso, estão sendo instaladas 15 torres com antenas e equipamentos de rádio, na freqüência de 5,8 GHz, em vários pontos da cidade. O objetivo é oferecer acesso em banda larga a todos os 2,3 milhões de habitantes. Mas Pimentel ainda não sabe que modelo de negócios vai adotar — até porque, nas freqüências de rádio liberadas pela Anatel (de 2,4 e de 5,8 GHz), a prefeitura não pode cobrar pelo acesso. Por enquanto, o que está decidido é que a área conhecida como Aglomerado da Serra, uma região pobre de Belo Horizonte onde moram cerca de 50 mil pessoas e que concentra grande número de favelas, terá acesso gratuito via WiMAX.


Rede elétrica

Porto Alegre também tem um backbone de fi bra óptica, que interliga diversos prédios municipais, principalmente no centro da cidade. Para expandir o acesso à banda larga para os bairros mais afastados, o município vem investindo em duas tecnologias: rádio e PLC (PowerLine Communication - Tecnologia que usa os fi os da rede elétrica para trafegar sinais de telecomunicações). Um dos bairros críticos é o da Restinga, que fi ca a 40 quilômetros do centro, tem população de mais de 100 mil habitantes e ainda um morro na frente. Por isso, ele foi escolhido para testar as duas tecnologias.


Num dos pilotos, em operação desde o fi nal do ano, Restinga ganhou 24 pontos de acesso wireless, instalados em escolas, postos de saúde, telecentros e um centro administrativo. A tecnologia utilizada é a de rádio ponto-multiponto Canopy, da Motorola, e as conexões disponíveis são de 1 Mbps para cada ponto. Agora, essa tecnologia está sendo usada para expandir a banda larga para toda a capital gaúcha, a princípio para atender as 92 escolas municipais — depois, a idéia é integrar também os postos de saúde. O investimento previsto é de 2,8 milhões de reais e envolve a implantação de 15 torres de transmissão. “A partir desses pontos, vamos cobrir a cidade toda com banda larga até o fi m do ano”, afirma André Kulczynski, presidente da Procempa, a empresa de TI do município.


Para o projeto de internet por PLC, a Procempa fez um acordo com a companhia de energia elétrica — a CEEE — e conectou quatro pontos na Restinga em banda larga. A velocidade é de 40 Mbps. Uma das aplicações, na área de telemedicina, prevê a transmissão em tempo real das imagens de exames de ultrasom em gestantes, realizados no posto de saúde da Restinga, para médicos especialistas de um hospital municipal, no centro da cidade, que poderão fazer a avaliação a distância.


Diagnóstico remoto

Em Parintins, também houve uma combinação de tecnologias — todas sem fi o — para fazer a banda larga chegar até a população, de 114 mil habitantes. A cidade, que fi ca em uma ilha no rio Amazonas, recebeu um link de satélite da Embratel e infraestrutura de rede WiMAX (na freqüência de 3,5 GHz) da Intel. Além dessa rede, usada para distribuir a conexão de banda larga para toda a ilha, a Intel instalou pontos de acesso Wi-Fi em duas escolas, um centro comunitário e um posto de saúde. Inaugurado em setembro do ano passado, o projeto Parintins Digital já mostra resultados, principalmente na área de saúde. Como a cidade não tem especialistas em dermatologia, a Secretaria da Saúde municipal fez um acordo com a Universidade do Estado do Amazonas, em Manaus, e, uma vez por semana, é realizada uma videoconferência para a avaliação remota de casos de lesões de pele. “Conseguimos fazer o diagnóstico precoce de quatro casos de câncer de pele e dois de hanseníase”, afi rma o médico Francisco Tussolini, secretário de Saúde de Parintins.


Sem fios na paisagem

Nas cidades que aboliram o emaranhado de fi os da paisagem — como as históricas Ouro Preto e Tiradentes, em Minas Gerais, e Parati, no Rio de Janeiro —, o uso de tecnologia wireless para montar as redes de banda larga é obrigatório. “Em Tiradentes, a lei ambiental restringe os fi os, principalmente no centro histórico, onde toda a instalação elétrica e telefônica é subterrânea”, afi rma Marcelo Gomes, secretário de Turismo, Cultura e Meio Ambiente do município. O projeto Tiradentes Digital, implantado no início do ano passado, é baseado em rede mesh. Os equipamentos, doados pela Cisco, fazem a distribuição da banda larga entre as sete escolas públicas da cidade, a Secretaria da Saúde e outros órgãos municipais. “Criamos uma hotzone entre esses pontos e quem está dentro dela hoje acessa a internet gratuitamente”, diz Gomes.


No momento, essa área está limitada ao centro histórico de Tiradentes, ocupado pelo comércio e por residências de pessoas de renda mais alta. Todos compartilham um link da Telemar de 1 Mbps, usado também pela administração pública e por visitantes que eventualmente levam seus notebooks para a cidade. As escolas têm outro link, também de 1 Mbps. Até agosto de 2008, a prefeitura pretende cobrir toda a parte urbana do município e ampliar o link para 4 Mbps.

Atualizado em ( 21-Jan-2008 )
 
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